domingo, 7 de agosto de 2016

O caso Feliciano e a síndrome da Babilônia evangélica

*Nelson Gervoni
Novamente o meio evangélico é exposto na mídia em mais um escândalo. Num vai e vem de acusações, provas, desmentido e prisão de um assessor, o pastor/artista/deputado federal Marco Feliciano é acusado por uma jovem de tentativa de estupro. Assim como outros escândalos, esses fato precisa ser analisado com o foco aberto mais para o chamado "mundo gospel" que para a pessoa do pastor/artista/deputado, pois trata-se de mais um evento simbólico do que vivem determinados segmentos evangélicos no Brasil. Dito de outra forma, esse moço é meramente um produto dessa síndrome doutrinária (há todo um conjunto de doutrinas por trás de tudo isso) e econômica (e também há aspectos econômico-financeiros às sombras desses imbróglios) que envolve boa parte das igrejas evangélicas no país, sob as influências do neopentecostalismo, da teologia da prosperidade (se bem que esses dois se confundem), da comercialização do sagrado, do casamento entre igrejas e (partidos) políticos e da alienação eclesiástica frente à realidade social, ética e moral da nação.
Esse caldo maligno tem gerado Felicianos, Cunhas, Bolsonaros e Malafaias (esses últimos defendem aqueles). Nesse colesterol organizacional "evangélico", que tenta entupir as veias da Noiva do Cordeiro, temos pastores que recebem, em nome da Igreja Imaculada, o dinheiro sujo das propinas oriundas dos petrolões; líderes que recebem salários públicos por cargos de (des)confiança em departamentos que mal sabem onde ficam; pastores que vendem votos dos crentes (como se deles fossem donos) em troca de benefícios pessoais em forma de cargos, salários e dinheiro lavado; artistas gospel que cobram verdadeiras fortunas para animar auditórios de megaigrejas, levando seu povo a, depois de uma maquiada adoração, digitarem valores para as contas "sagradas" nas dezenas de máquinas de débito e crédito que circulam pelo templo; pregadores especializados em distorcer textos da Bíblia para extorquir até o último centavo do desempregado e do falido, sob promessas de "ressuscitar suas vidas financeiras" ou de "quebrar a maldição financeira" sob a pobre alegação "teológica" de que "o mundo espiritual se movimenta pela oferta".
Nesse mesmo caldo neopentecostal e "capetalista" estão as megaigrejas mergulhadas em dívidas (não menos megas) causadas pela ganância e pela disputa de poder e status denominacionais, onde andar de carrões importados (alguns emprestados de membros milionários) é símbolo de "bênção e prosperidade" e de "exemplo" para as constantes e exageradas contribuições daqueles que desejam alcançar a mesma "prosperidade" do "ungido do Senhor".
Quando apanhados em suas próprias arapucas o discurso dos acusados é muito parecido. Malfeitores viram santos e vítimas, culpando inimigos políticos, invejosos, Satanás e até mesmo a esquerda. "Isso me parece que é uma perseguição política. As esquerdas estão aí, querendo derrubar todo mundo", disse Talma Bauer, chefe de gabinete de Marco Feliciano, após ter sido detido sob a acusação de cárcere privado.
Esta triste realidade tem gerado um exército de envergonhados e desigrejados, que nem de longe querem ser confundidos com a "banda podre" dos evangélicos. Eu mesmo sou um exemplo ambulante dessa realidade. Fui fugitivo de igrejas e confesso que tenho vergonha de dizer que sou evangélico. Para ser bem verdadeiro, chego a duvidar que o sou. Sofro e choro ao ver que, no dizer do poeta, "a minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão" (Apesar de você, Chico Buarque de Holanda). Nos sentimos como quem teve sua fé roubada e o seu simbólico quebrado. São esses do "caminho largo", e não nós, os que recitam textos bíblicos e falam em nome do Senhor, como fez recentemente Eduardo Cunha, ou como fez agora o chefe de gabinete de Feliciano, que ao ser solto pela polícia, disse "mas nós estamos firmes, com Jesus venceremos".
Outro dado importante é que quando os confrontamos como faço aqui nesse artigo, a reação vem montada num discurso pronto. Ou eles dizem que estamos "tocando nos ungidos do Senhor", ou que estamos falando mal da "Noiva de Cristo", o que, segundo afirmam, deixa o Noivo muito irado conosco. Quanto a isso primeiramente deve-se contextualizar o Salmo 105.15, pois os "meus ungidos" e "meus profetas" ali são uma referência ao povo de Israel "Quando eram ainda poucos em número, apenas um punhado de peregrinos na terra, (v.12) migrando de nação para nação, de um reino para outro povo (v.13)" e não para pastores atuais, muito menos para cobrir seus erros. De mais a mais, até mesmo o rei Davi quando pecou foi confrontado pelo profeta Natã, mesmo sendo um homem segundo o coração de Deus, assim como outros reis eram confrontados pelos profetas do Antigo Testamento, que os condenavam por seus pecados e injustiças.
Da mesma forma não estamos falando mal da Noiva. Ao contrário, estamos defendendo-a daqueles que, sob o pretexto de conduzi-la ao Noivo, tentam abusá-la e prostituí-la no caminho, usando-a para seus prazeres, cafetinando-a para às custas dela enriquecerem. Contra estes sim virá a ira do Noivo, assim como contra aqueles que se calam diante de tais abusos.
Como evangélico me lembro que nossos pais nos ensinaram na infância e adolescência que a Igreja Católica era o símbolo da Babilônia do Apocalipse. Vejo isso sob dois aspectos: o da ingenuidade dos nossos pais que consumiram a teologia fundamentalista que lhes passaram, sem nunca refletir sobre ela para criticá-la; e do ponto de vista dos "pecados da Igreja Católica em dois mil anos de história", dos quais se arrependeu, confessou e pediu perdão através do Papa João Paulo II. É irônico que hoje parece ocuparmos esse lugar babilônico que até então, ao nosso ver, era dos católicos. A verdade é que "babilonizaram" esse segmento da igreja evangélica e hoje parece vivermos outra ingenuidade, a de não perceber que uma banda podre, se não for cortada, apodrece todo o sistema.
Precisamos urgente de uma ruptura, de uma reforma como a que fez Francisco de Assis no século XIII, ou Martinho Lutero e os reformadores no sec. XVI, ou mesmo da reforma radical que fizeram os anabatistas, se contrapondo a Lutero. Caso contrário corremos os mesmos riscos da Babilônia do Apocalipse, a saber, "beber o cálice do vinho do furor da ira do SENHOR" (16.19); cair e nos tornar "habitação de demônios e antro de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de toda ave impura e detestável" (18.2) e “Com semelhante violência ser jogada por terra [...] para nunca mais ser encontrada!" (18.21) Bíblia KJA.
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* Nelson Gervoni é teólogo evangélico, professor universitário e jornalista (MTB 75011/SP)