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quinta-feira, 30 de abril de 2015

FÉ E RIQUEZAS: velhos malabarismos de uma igreja decadente

Antes de tudo quero dizer que esta não é uma "crítica à Noiva de Cristo" [a igreja], como diz o discurso atual, mas uma crítica àqueles que, ao conduzi-la ao encontro de seu Desposado, abusam-na, muitas vezes como que a levando à prática da prostituição.

É que estou relendo a História da Reforma para preparar aula, o que me provoca sérias reflexões. Independente de qualquer motivo, vez ou outra é necessária essa releitura para revermos nossas posturas ético-econômico-religiosas.

No contexto da Reforma “Os papas passaram boa parte do século XIV vivendo em meio a muito luxo em Avignon, na França.” (LANG e PETERSEN, 2013, p. 427). Não dá para ler isso sem fazer um paralelo com os atuais “papas evangélicos”.

Parece uma ironia da História que nós, os evangélicos, que nos nominamos legítimos herdeiros do protestantismo, mais até que os reformados (faço uma larga distinção entre os conceitos de “protestante” e “evangélico”), reproduzimos no nosso meio aquilo que tanto criticamos na prática católica dos séculos XIV, XV e XVI.

A História nos mostra que “Para satisfazer sua necessidade insaciável de dinheiro, o papado se envolveu em práticas [doutrinárias] dúbias, como, por exemplo, a venda de cargos na igreja e de indulgências (redução do tempo passado no purgatório)” (p. 427). Isso era feito em nome da obra de Deus, da expansão e fortalecimento do cristianismo, do desenvolvimento da igreja e da ação missionária (é bom lembrar que desde o século VII a igreja mantinha empreendimentos missionários, por exemplo, na China), ou da construção de uma nova basílica em Roma.

Atualmente não é muito diferente. As lideranças de igrejas, principalmente as neopentecostais, assumidas ou não (há um sem número de igrejas copiando as práticas neopentecostais, embora se autoafirmando tradicionais ou pentecostais), fazem um verdadeiro malabarismo para arrecadar dinheiro. Por exemplo, hoje está na moda uma prática deformada chamada de “ministrar a oferta”. A distorção começa no próprio termo, pois ministrar significa prestar, fornecer, dar, ajudar; neste caso, ministrar a oferta seria entregar uma oferta no altar. Porém, chamam de “ministrar a oferta” à prática de se pregar um sermão específico para o momento da oferta, numa clara postura de se convencer “biblicamente” a igreja a ofertar. Não é injusto quando dizem que essas igrejas têm dois sermões: um para arrecadar e outro para pregar a Palavra.  

Esse momento litúrgico bem que poderia se chamar "ministração Tetzel", numa referência ao pregador católico do século XVI, chamado Johann Tetzel. LANG e PETERSEN (2013) narram que "Tetze, monge dominicano e pregador de sucesso, ficara encarregado de administrar a venda das indulgências." (p. 429). É dele a frase "Na hora em que a moeda no cofre cai, uma alma do purgatório sai." (p. 428).

Mas a distorção não para no uso termo. A grande vítima é a própria Palavra de Deus. É assustador o que fazem com os textos bíblicos visando o convencimento da contribuição financeira. A exegese é aviltada e a hermenêutica vituperada. Chega a dar dó do texto sagrado! 

Há um outro malabarismo onde o pregador promete "liberar uma unção de prosperidade" com base em Deuteronômio 28.2-13, a quem fizer uma oferta especial. Vi isto num programa de TV de um pregador de nível nacional, oferecido por um antigo pregador dos EUA. Quem contribuísse poderia telefonar para o programa e ouvir a gravação da "liberação da prosperidade".  Creio na atualidade de Deuteronômio 28. 2-13, apesar de estar no Antigo Testamento. Creio também que o texto fala de uma prosperidade que está à disposição do cristão atualmente.  Esta promessa (que o pregador chama de unção) foi liberada na Cruz do Calvário e está à disposição dos que ouvirem a voz do SENHOR (parte b do v.2) - e colocá-la em prática (Mt 7.24). Isto dispensa a "liberação" dada por qualquer homem a partir de uma oferta financeira ou sem ela. Ou seja, se um pregador disser que vai "liberar a unção de prosperidade que está em Deuteronômio 28 para quem adquirir um carnê", estará chovendo no molhado, pois promete liberar "profeticamente" - como gostam de dizer - através de uma contribuição financeira, aquilo que já foi liberado sacrificial e gratuitamente na Cruz, com preço de sangue. Esta é outra forma de "vender indulgência".

Outra coisa a ser pensada é que esta prosperidade não é sempre financeira. Tanto é que em Filipenses 4.12, Paulo afirmou: "Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito, ou passando necessidade". Ou será que Paulo não usufruía dessa unção e por isso passava necessidade de vez em quando?

Pessoalmente não vejo como equívoco, vez ou outra, o pastor ensinar sobre contribuição financeira no culto. Entretanto, o “ministrar a oferta” foi incorporado ao culto como os demais componentes litúrgicos (leitura da Palavra, oração, adoração, louvor, sermão, etc.), no claro propósito da arrecadação. Espero não pecar pelo exagero da ingenuidade financeira, mas sou do tempo em que no momento do ofertório o pastor dizia mais ou menos o seguinte: “entreguemos nossos dízimos e ofertas no Altar, enquanto o coral entoa um hino ao Senhor”. Nem por isso a obra ficava inviabilizada por falta de receita. 

As motivações são praticamente as mesmas, incluindo o enriquecimento pessoal dos líderes, assim como as camufladas justificativas, entre elas a construção de mega templos, como o que foi construído recentemente pela maior igreja neopentecostal do mundo, em sua réplica agigantada do templo de Salomão.

Voltando à História, o estilo de vida dos papas e bispos do século XIV atraia numerosas críticas ao poder eclesiástico. Essa mesma forma crítica ocorria também nos tempos do Antigo Testamento com a censura profética aos sacerdotes. Postura que se deu também na Idade Média com homens como John Wyclif (c. 1320-1384), John Huss (c. 1373-1415), Martinho Lutero (1483-1546), João Calvino (1509-1564), Ulrico Zuínglio (1484-1531), Thomas Munzer (c. 1490-1525), Conrad Grabel (1498-1526) e dezenas de outros nomes. Estes homens “não só criticavam o comportamento imoral dos papas e bispos como também colocavam em dúvida várias doutrinas católicas, inclusive o papel do sacerdote como mediador entre Deus e o homem.” (p. 427). 

Esses não estavam “falando mal da noiva do Cordeiro” e com isso “provocado o Noivo à ira”, como se diz no discurso dos que, a exemplo dos papas católicos da Idade Média, se veem como “incriticáveis”. Ao contrário, esses homens comprometeram suas vidas em defesa da noiva abusada e prostituída, pois sabiam que decepcionariam o Noivo, caso não a defendessem. 

Tais igrejas, embora experimentando um crescimento numérico e patrimonial gigantesco, estão em decadência a exemplo do que ocorreu com a Igreja Católica na Idade Média, que crescia em poder, glória e riqueza. Decadência pelo menos bíblica e doutrinária. Ser um cristão ou uma igreja econômica e patrimonialmente rica, pode representar miséria e pobreza (Ap 3.17). Da mesma forma, ser um discípulo ou uma igreja sem patrimônio ou dinheiro algum pode significar riqueza (Ap 2.9).

REFERÊNCIA
HORTON, D. (Org). Reforma e avivamento. In Curso para formação de líderes e obreiros : as principais disciplinas de um curso de teologia reunidas em um só volume. São Paulo : Vida Nova, 2013.