sexta-feira, 5 de maio de 2017

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Nos vemos lá.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Jesus: a simplicidade do nascimento ao sepultamento

Nelson Gervoni

"Se Jesus optou por uma vida de simplicidade desde o nascimento até o sepultamento, por que as estruturas, os sistemas e os líderes religiosos cristãos são tão opulentos?" Por sua majestade Jesus poderia ter nascido num palácio, mas nasceu numa cocheira de animais, sendo enrolado por sua mãe com tiras de pano (Lucas 2.7). A Lei de Moisés (Êxodo 13.12 ss) dizia que todo primeiro filho do sexo masculino tinha que ser consagrado a DEUS com uma oferta de animal que seria uma espécie de substituição. Pela glória que já possuía, Jesus bem que merecia que sua oferta de substituição fosse um novilho tenro e bonito, mas a condição financeira de José e Maria lhes permitiu ofertar apenas dois pombinhos (Lucas 2.24). Por sua glória e por ser Filho do Criador, dono do ouro da prata (Ageu 2.8), Jesus bem que merecia morar num palácio ou numa das melhores casas da sua terra e viajar nas mais caras carruagens da época. No entanto, quando um escriba se aproximou dele dizendo que o seguiria para onde quer que ele fosse, Jesus lhe respondeu: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mateus 8.19-20). Por sua nobreza Jesus bem que poderia ter se relacionado somente com os homens mais ricos e influentes do seu tempo. Porém, andava também entre os pobres, enfermos – inclusive os rejeitados leprosos – mulheres de conduta duvidosa, prostitutas e toda a erroneamente chamada “escória da sociedade”, sendo inclusive chamado certa vez de “glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores!” (Mateus 11.19b). Quanto à sua morte, teria a mesma eficácia teológica se ele fosse crucificado sozinho. Ou quem sabe ele fosse morto entre dois outros homens de boa reputação e injustiçados como ele foi. Todavia, dois ladrões foram crucificados com ele, um à sua direita e outro à sua esquerda (Mateus 27.38), sendo ofendido por um e defendido por outro (Lucas 23.39 ss). Por fim, seu funeral e sepultamento só tiveram certa dignidade porque um seu simpatizante “um homem rico, de Arimatéia, por nome José, o qual havia se tornado discípulo de Jesus” (Mateus 27.57b), pagou as custas de um túmulo novo para ele. Essas coisas nos remetem a uma importante reflexão: Se Jesus optou por uma vida de simplicidade desde o nascimento até o sepultamento, por que as estruturas, os sistemas e os líderes religiosos cristãos são tão opulentos? Por que granjeiam para si mesmos tanta riqueza? Por que, ao invés de uma vida simples, a exemplo de Jesus, optam por tanta presunção, pretensão, vaidade e soberba? Por essas e outras causas Mahatma Gandhi disse certa vez que gostava de Cristo, mas não gostava de seus cristãos. “Seus cristãos são tão diferentes do seu Cristo”, disse ele. Millôr Fernandes - que se não me engano era ateu - disse algo interessante que se aplica a isso: "Eu não dou nenhum centavo por um homem que enriquece com a sua causa".

É também por essas razões que hoje há tanta gente escandalizada e decepcionada com certos segmentos “cristãos”, fazendo tentativas, ora bem, ora mal sucedidas de seguir a Cristo longe das “batalhas constantes entre aqueles que têm a mente corrompida e que são privados da verdade, os quais imaginam que a piedade é fonte de lucro” (1 Timóteo 6.5).

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

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QUEM TEM PÓS-GRADUAÇÃO ALCANÇA MELHORES POSIÇÕES NO MERCADO DE TRABALHO


Contato na Região de Campinas: Prof. Nelson Gervoni

terça-feira, 20 de dezembro de 2016

APÓSTOLOS DE ONTEM (pobres) X APÓSTOLOS DE HOJE (milionários)

Não sou adepto da classificação dessa geração de pregadores que se autodenominam apóstolos, pois ainda acredito que a nobreza do título cabe somente aos 12 primeiros, escolhidos e nomeados diretamente por Jesus e que depois disso a Igreja instituiu presbíteros e/ou bispos, que hoje são os pastores ou padres. Para isso acredito ter motivos bíblicos, teológicos, eclesiais e históricos que não vem ao caso descrevê-los aqui. Tanto é que no título pensei em colocar entre aspas os “Apóstolos” de hoje. Mas, para que ninguém me tenha como retrógado, conservador ao extremo ou fundamentalista, vamos admitir que a função de apóstolo seja atual e que Cristo continue nomeando e enviando os tais com uma missão mais específica, em especial a de fundar igrejas, como afirma a interpretação atual, mais notadamente a neopentecostal. Neste caso me chama a atenção a condição econômica dos apóstolos da atualidade, infinitamente diferente daquela vivida pelos primeiros doze escolhidos por Jesus. Se não, vejamos. A Bíblia diz que “Havendo Jesus convocado os Doze, concedeu-lhes poder e completa autoridade para expulsar todos os demônios, assim como para realizarem curas. Igualmente os enviou para proclamar o Reino de Deus e curar os doentes”. (Lucas 9.1,2). Facilmente alguém diria que os atuais apóstolos das megaigrejas e locatários dos melhores horários das grandes emissoras de TV estão fazendo isso. Um exemplo seria o apóstolo Valdemiro, que aparece em seus cultos televisados curando doentes e expulsando demônios e com isso, diria ainda, proclamando o Reino de Deus. É verdade que há uma distância enorme entre fazer milagres e proclamar o Reino de Deus, mas também isso não vem ao caso aqui. Ocorre que ao enviar os apóstolos para essa missão, a Bíblia diz que Jesus lhes deu a seguinte orientação: “Nada leveis convosco pelo caminho: nem bordão, nem mochila de viagem, nem pão, nem dinheiro e nem mesmo uma túnica extra. Na casa em que entrardes, ali permanecei até que chegue a hora da vossa saída”. (Lucas 9.3,4). Essa orientação nem de longe se parece com o comportamento financeiro dos apóstolos atuais. Nela Jesus está dizendo aos apóstolos que abram mão dos suprimentos mais básicos de sobrevivência, vivendo na total dependência da providência divina. Dito de outra forma, Jesus estava indicando-lhes que o equipamento da Missão seria espiritual e não material. Acredito que se fosse hoje Jesus diria aos apóstolos atuais mais ou menos assim: “Nada leveis convosco nesta missão, nem carrões, nem jatinhos, nem milhares de dólares, nem roupas caríssimas. Não recebam dinheiro de políticos, pois pode ser que seja sujo. Também não objetivem altíssimos salários e nem adquirais mansões e fazendas. Ao contrário, durmam na casa de pobres irmãos que de bom grado lhes hospedarão. Vivam financeiramente – diria o Mestre – como a grande maioria das pessoas às quais vocês haverão de curar e libertar de demônios”. Concluindo Jesus repetiria o que disse há mais de dois mil anos: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Mateus 8.20).

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

POR QUE A PEC 241/55 NÃO TOCA NOS JUROS DA DÍVIDA PÚBLICA?

Se você é trabalhador, operário, funcionário público, da classe média ou "baixa", PRECISA SABER DISSO. Se você NÃO é milionário ou mesmo rico, NÃO PODE IGNORAR TAL REALIDADE.
O governo Temer diz querer "diminuir os gastos públicos" através da PEC 241 (que já está no Senado como PEC 55), que congela por 20 anos investimentos essenciais em saúde, educação, habitação, transporte, assistência social, Previdência Social e etc. Entretanto, não fala que gasta muito mais com juros da dívida pública. Segundo a FIESP, no site www.jurometro.com.br
,só este ano já foram gastos R$ 365 BILHÕES com esses juros.
O estrago social que o pagamento de juros faz é tão grande, que segundo a FIESP, esse gasto daria para manter 140 mil crianças na escola; equipar 730 mil unidades escolares, ou construir 349 mil escolas. Esse mesmo valor na Habitação permitiria a construção de mais de 5 milhões de casas populares; 150 milhões de ligações de água; ou, 95 milhões de ligações de esgoto.
Se aplicados na renda do trabalhador o que o Governo Federal já gastou com juros seria o equivalente ao sustento de mais de 500 milhões de trabalhadores com um salário mínimo; 880 milhões de cestas básicas ou 1 bilhão e 300 mil pessoas recebendo o Bolsa-família. Se Temer aplicasse o dinheiro dos juros da dívida pública em transporte, construiria mais de 120 mil quilômetros de ferrovias; mais de 220 quilômetros de rodovias; ou, inauguraria 450 novos aeroportos.
E por que Temer não propõe cortar também esses gastos? Porque, segundo o economista João Sicsú, em artigo publicado por Carta Capital (23-11-2016), "O pagamento de juros da dívida pública é feito aos credores do Estado, que são banqueiros e rentistas. A quase totalidade dos credores é composta de milionários e bilionários. É a elite financeira, formada inclusive por empresários do setor produtivo. São os ricos do Brasil. Somente no ano de 2015, eles receberam mais de 500 bilhões de reais dos cofres públicos", se somarmos aos juros outros benefícios que tiveram.

domingo, 21 de agosto de 2016

CARTA DA ALIANÇA DE BATISTAS DO BRASIL EM REPÚDIO AO PROJETO DE LEI 867/2015, DO “PROGRAMA ESCOLA SEM PARTIDO”

“´Ó vós, que transformais o direito em injustiça e amargura e ainda lançais por terra a retidão e o bom senso! (...) mas, antes, jorre a equidade (respeito à igualdade de direitos) como uma fonte e a justiça como torrente que não seca”. Amós 5.7,24

A Aliança de Batistas do Brasil, reunida em Assembleia na cidade de Salvador nos dias 29 e 30 de julho de 2016, decide pronunciar-se em repúdio ao PL 867/2015 do “Programa Escola Sem Partido”.
Em tempos de ameaças à democracia e sistemática retirada de direitos das minorias, reconhecemos neste Projeto de Lei um ataque às conquistas da educação brasileira nas suas concepções e práticas pedagógicas, especialmente no que se refere aos princípios da diversidade, da pluralidade e da liberdade de expressão, bem como ao reconhecimento do professor enquanto educador e do estudante enquanto sujeito ativo no processo de educação. Afirmamos que tais princípios são reconhecidos pela tradição cristã como princípios divinos que fomentam a vida em dignidade e em abundância.
Repudiamos o fato de que a evocação dos princípios do pluralismo, liberdade de expressão e diversidade apareçam no texto sob o argumento da neutralidade axiológica, amplamente questionado por outras teorias do conhecimento. Consideramos que qualquer afirmação de neutralidade é uma construção interessada e que, portanto, trata-se de uma contradição e impossibilidade. Sendo assim, reconhecemos o programa da “Escola Sem Partido” como escola de um único partido, ou seja, uma escola cristianizada, de classe média, branca, de homens e de heteros.
Denunciamos que os nossos espaços escolares estão construídos sob a hegemonia cristã, classista, etnocêntrica e sexista. Reconhecemos que, apesar disto e com muita dificuldade, a educação tem caminhado no sentido da pluralidade, diversidade e liberdade, e, portanto gerando mudanças e transformações que ameaçam tais espaços hegemônicos. Neste sentido a PL da “Escola Sem Partido” pretende a manutenção da ordem vigente que opera a violência contra crianças, idosos, mulheres, negros, índios, pobres, LGBTTIQ, outras religiões e as liberdades laicas. Propõe a manutenção do professor instrutor em detrimento do educador; a doutrinação ideológica em detrimento do pensamento crítico, o que acontece, inclusive, através da proibição de abordagens temáticas e teóricas e da proibição do uso de determinados materiais educativos; a judicialização da educação; a criminalização do exercício da docência e o incentivo à cultura da delação.
Afirmamos a educação familiar moral e religiosa como um direito de todas e todos, porém nunca em detrimento da educação pública ou como parâmetro para esta. Reconhecemos que o Estado é responsável por oferecer, no espaço público, a todas e todos uma educação pautada na liberdade de expressão, pluralidade e diversidade. É o que assegura a Lei vigente de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB de 20 de dezembro de 1996), possibilitando, quando necessário, a superação das diversas ambivalências e violências de outros espaços educacionais, inclusive do familiar.
Denunciamos, assim, o “Programa da Escola sem Partido” como legitimador de opressões e violências e contrário à celebração da vida em suas diversas expressões e à dignidade do ser humano enquanto imagem de Deus. Que o Deus da vida abundante, exuberante e diversa, nos desafie nesta luta e nos acompanhe nas construções de espaços onde superabunde o direito, a justiça e a liberdade.


Aletuza Gomes Leite
Observatório da Aliança de Batistas do Brasil

Joel Zeferino
Presidente da Aliança de Batistas do Brasil

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

domingo, 7 de agosto de 2016

O caso Feliciano e a síndrome da Babilônia evangélica

*Nelson Gervoni
Novamente o meio evangélico é exposto na mídia em mais um escândalo. Num vai e vem de acusações, provas, desmentido e prisão de um assessor, o pastor/artista/deputado federal Marco Feliciano é acusado por uma jovem de tentativa de estupro. Assim como outros escândalos, esses fato precisa ser analisado com o foco aberto mais para o chamado "mundo gospel" que para a pessoa do pastor/artista/deputado, pois trata-se de mais um evento simbólico do que vivem determinados segmentos evangélicos no Brasil. Dito de outra forma, esse moço é meramente um produto dessa síndrome doutrinária (há todo um conjunto de doutrinas por trás de tudo isso) e econômica (e também há aspectos econômico-financeiros às sombras desses imbróglios) que envolve boa parte das igrejas evangélicas no país, sob as influências do neopentecostalismo, da teologia da prosperidade (se bem que esses dois se confundem), da comercialização do sagrado, do casamento entre igrejas e (partidos) políticos e da alienação eclesiástica frente à realidade social, ética e moral da nação.
Esse caldo maligno tem gerado Felicianos, Cunhas, Bolsonaros e Malafaias (esses últimos defendem aqueles). Nesse colesterol organizacional "evangélico", que tenta entupir as veias da Noiva do Cordeiro, temos pastores que recebem, em nome da Igreja Imaculada, o dinheiro sujo das propinas oriundas dos petrolões; líderes que recebem salários públicos por cargos de (des)confiança em departamentos que mal sabem onde ficam; pastores que vendem votos dos crentes (como se deles fossem donos) em troca de benefícios pessoais em forma de cargos, salários e dinheiro lavado; artistas gospel que cobram verdadeiras fortunas para animar auditórios de megaigrejas, levando seu povo a, depois de uma maquiada adoração, digitarem valores para as contas "sagradas" nas dezenas de máquinas de débito e crédito que circulam pelo templo; pregadores especializados em distorcer textos da Bíblia para extorquir até o último centavo do desempregado e do falido, sob promessas de "ressuscitar suas vidas financeiras" ou de "quebrar a maldição financeira" sob a pobre alegação "teológica" de que "o mundo espiritual se movimenta pela oferta".
Nesse mesmo caldo neopentecostal e "capetalista" estão as megaigrejas mergulhadas em dívidas (não menos megas) causadas pela ganância e pela disputa de poder e status denominacionais, onde andar de carrões importados (alguns emprestados de membros milionários) é símbolo de "bênção e prosperidade" e de "exemplo" para as constantes e exageradas contribuições daqueles que desejam alcançar a mesma "prosperidade" do "ungido do Senhor".
Quando apanhados em suas próprias arapucas o discurso dos acusados é muito parecido. Malfeitores viram santos e vítimas, culpando inimigos políticos, invejosos, Satanás e até mesmo a esquerda. "Isso me parece que é uma perseguição política. As esquerdas estão aí, querendo derrubar todo mundo", disse Talma Bauer, chefe de gabinete de Marco Feliciano, após ter sido detido sob a acusação de cárcere privado.
Esta triste realidade tem gerado um exército de envergonhados e desigrejados, que nem de longe querem ser confundidos com a "banda podre" dos evangélicos. Eu mesmo sou um exemplo ambulante dessa realidade. Fui fugitivo de igrejas e confesso que tenho vergonha de dizer que sou evangélico. Para ser bem verdadeiro, chego a duvidar que o sou. Sofro e choro ao ver que, no dizer do poeta, "a minha gente hoje anda falando de lado e olhando pro chão" (Apesar de você, Chico Buarque de Holanda). Nos sentimos como quem teve sua fé roubada e o seu simbólico quebrado. São esses do "caminho largo", e não nós, os que recitam textos bíblicos e falam em nome do Senhor, como fez recentemente Eduardo Cunha, ou como fez agora o chefe de gabinete de Feliciano, que ao ser solto pela polícia, disse "mas nós estamos firmes, com Jesus venceremos".
Outro dado importante é que quando os confrontamos como faço aqui nesse artigo, a reação vem montada num discurso pronto. Ou eles dizem que estamos "tocando nos ungidos do Senhor", ou que estamos falando mal da "Noiva de Cristo", o que, segundo afirmam, deixa o Noivo muito irado conosco. Quanto a isso primeiramente deve-se contextualizar o Salmo 105.15, pois os "meus ungidos" e "meus profetas" ali são uma referência ao povo de Israel "Quando eram ainda poucos em número, apenas um punhado de peregrinos na terra, (v.12) migrando de nação para nação, de um reino para outro povo (v.13)" e não para pastores atuais, muito menos para cobrir seus erros. De mais a mais, até mesmo o rei Davi quando pecou foi confrontado pelo profeta Natã, mesmo sendo um homem segundo o coração de Deus, assim como outros reis eram confrontados pelos profetas do Antigo Testamento, que os condenavam por seus pecados e injustiças.
Da mesma forma não estamos falando mal da Noiva. Ao contrário, estamos defendendo-a daqueles que, sob o pretexto de conduzi-la ao Noivo, tentam abusá-la e prostituí-la no caminho, usando-a para seus prazeres, cafetinando-a para às custas dela enriquecerem. Contra estes sim virá a ira do Noivo, assim como contra aqueles que se calam diante de tais abusos.
Como evangélico me lembro que nossos pais nos ensinaram na infância e adolescência que a Igreja Católica era o símbolo da Babilônia do Apocalipse. Vejo isso sob dois aspectos: o da ingenuidade dos nossos pais que consumiram a teologia fundamentalista que lhes passaram, sem nunca refletir sobre ela para criticá-la; e do ponto de vista dos "pecados da Igreja Católica em dois mil anos de história", dos quais se arrependeu, confessou e pediu perdão através do Papa João Paulo II. É irônico que hoje parece ocuparmos esse lugar babilônico que até então, ao nosso ver, era dos católicos. A verdade é que "babilonizaram" esse segmento da igreja evangélica e hoje parece vivermos outra ingenuidade, a de não perceber que uma banda podre, se não for cortada, apodrece todo o sistema.
Precisamos urgente de uma ruptura, de uma reforma como a que fez Francisco de Assis no século XIII, ou Martinho Lutero e os reformadores no sec. XVI, ou mesmo da reforma radical que fizeram os anabatistas, se contrapondo a Lutero. Caso contrário corremos os mesmos riscos da Babilônia do Apocalipse, a saber, "beber o cálice do vinho do furor da ira do SENHOR" (16.19); cair e nos tornar "habitação de demônios e antro de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de toda ave impura e detestável" (18.2) e “Com semelhante violência ser jogada por terra [...] para nunca mais ser encontrada!" (18.21) Bíblia KJA.
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* Nelson Gervoni é teólogo evangélico, professor universitário e jornalista (MTB 75011/SP)

sábado, 9 de julho de 2016

A corrupção no Brasil: um olhar profético e teológico a partir de uma adaptação de Tiago cap. 5 e da releitura do profetismo do AT

*Nelson Gervoni

O atual cenário político e econômico do país requer um olhar teológico que, bem apurado, interprete profeticamente a conjuntura e ofereça à Igreja e à sociedade em geral uma compreensão da ação de Deus nesse importante momento da história nacional. Afinal, é de se crer que Deus não esteja alheio a esse contexto. Outra contribuição desse olhar teológico é convencer importantes segmentos da Igreja que é seu papel ser "sal da terra" e "luz do mundo" (Mateus 5.13, 14) através de intervenções que, no mínimo, sejam portadoras do anúncio do Juízo Divino contra os causadores de todo esse mal. Isso porque tais segmentos, numa postura de conveniente acomodação, acredita - ou finge acreditar - que ser sal e luz se limite à pregação do púlpito e ao "evangelismo pessoal" e, quando muito, à ações assistencialistas que só fazem legitimar e perpetuar aquilo que se acredita combater.

Um olhar teológico assim, ajudaria na compreensão de que para Deus os pecados sociais, como a injustiça social - inclusive aquela causada pela corrupção - e o latifúndio, por exemplo, são tão danosos quanto (ou mais que) a idolatria, adultério, alcoolismo e outros pecados pessoais. Para citar uns poucos textos bíblicos, Isaías 5.8 condena o latifúndio dizendo "Ai dos que ajuntam casas e mais casas, dos que acrescentam um campo a outro, até que não haja mais onde alguém possa erguer sua casa, e eles se tornem os senhores absolutos da terra!" (BKJ A - Bíblia King James Atualizada). Ezequiel 16.49 investe contra ainjustiça social afirmando que "...esta foi a malignidade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas [cidades a ela ligadas] eram arrogantes; tiveram fartura de alimento e viviam sem a menor preocupação; não ajudavam os pobres e necessitados." (BKJ A, com entre chaves e grifo nossos).

Mas há outro texto que chama a atenção por ser perfeitamente aplicável (talvez com uma sincera e ligeira adaptação ao contexto brasileiro, como veremos) ao lamaçal de corrupção no qual se vê mergulhada a nossa pátria e à forma como a Igreja parece ignorar a realidade. Trata-se de Tiago 5, que segundo SONGER (1985, p. 121)   aborda "[...] uma situação em que as pessoas estavam professando a fé em Cristo e participando da comunidade cristã sem perceber as vastas implicações morais e éticas de tal envolvimento (2.14-26)", exatamente como fazem determinados segmentos cristãos, especialmente entre os evangélicos. 

Se lermos Tiago 5 com a proposta adaptação teremos no texto as expressões como veremos a seguir, a partir da BKJ A. (As adaptações colocamos em negrito).

E agora, prestai atenção, vós, os políticos e empresários corruptos! Chorai, não com lágrimas ensaiadas decrocodilo, e arrependei-vos, ao invés de negarem ardilosa e estrategicamente vossas falcatruas diante das camêras de TV, porquanto desgraças haverão de cair sobre vós, roubando vossos mandatos e cargos, assim como a liberdade e a paz vossa e de vossos familiares. 2. Vossas riquezas oriundas dos roubos e propinas apodreceram, e vossas roupas finas, compradas no exterior com dinheiro desviado, desvaneceram, roídas pela traça, representada pelos bloqueios decretados por magistrados em vossas vultuosas contas bancárias. 3. Vosso ouro e vossa prata aplicados em trust no exterior, todos estão oxidados. E a ferrugem deles testemunhará nas delações premiadas contra vós e, assim como o fogo, vos devorará a carne. Tendes acumulado bens demais nestes últimos tempos de mandatos manchados por vossas roubalheiras. 4. Eis que o salário dos dois milhões de trabalhadores desempregados que ceifaram os vossos campos e que vós, desonestamente, deixastes de pagar, desviando-o de forma a deixá-los desprovidos de saúde, educação e de tudo o que é essencial à vida, está clamando por justiça, não mais pela justiça falha e comprometida dos homens, mas pela Justiça Divina, e tais clamores chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. 5. Tendes vivido regaladamente sobre a terra com o dinheiro sujo da corrupção, satisfazendo todos os vossos desejos e de vossas esposas e filhos omissos e coniventes, e tendes comido até vos fartardes em jantares caríssimos no exterior, bancados pelo dinheiro público, como em dias de festa. 6. Condenais e matais o justo que empobrecido morre à míngua, sem que ele tenha vos oferecido qualquer resistência, mesmo nas urnas eletrônicas que por vós foram manipuladas. 

Esse texto, mesmo sem essa adaptação, é emblemático do que Deus começou a fazer no Brasil, revelando com Sua Luz as entranhas apodrecidas dos Poderes Executivo e Legislativo - por enquanto esses dois - e dos sistemas financeiros reféns da ganância de um capitalismo corrompido pela imoralidade econômica. Semelhante a um amontoado de tábuas num quintal, que depois de anos é removido desalojando escorpiões e outras peçonhas que se tornam agressivos tentando se esconder da luz, assim é a ação revelatória de Deus sobre os porões escuros desse país. 

Assim, um olhar teológico mostraria que, como Igreja de Cristo, o que nos resta fazer é denunciar biblicamente não somente os pecados individuais ou pessoais, mas a iniquidade social que vitima milhões de pessoas. Afinal, se nos calarmos, as pedras clamarão em nosso lugar (Lucas 19.40), representadas pelo Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e outros órgãos. 

Esse olhar teológico mostraria que a Igreja Cristã executaria o seu querigma denunciatório principalmente - embora que não exclusivamente - através de seus pastores, que interveriam imparcialmente, sem interesses pessoais, políticos, ideológicos, econômicos e financeiros, influenciados pela Palavra de Deus e não pela mídia comprometida com o sistema.

A interpretação trazida por esse olhar apontaria para uma ação profética diferente daquela praticada por Balaão (Números 22-24), que teve que ser impedido por Deus para não se corromper pela propina de Balaque. Pois é triste constatar o quanto líderes evangélicos, presidentes de destacadas denominações pentecostais, renomados pregadores televisivos e proprietários de editoras do chamado "mundo gospel", com ou sem cargo legislativo, vêm copiando o modelo "balaãoneano". Como nas palavras do apóstolo Pedro (II, 2.15) "Eles se desviaram, abandonando o Caminho correto e seguindo o rastro de Balaão, filho de Beor, que se apaixonou pelo salário da injustiça..."

Esse tão necessário olhar teológico estabeleceria uma cortante distinção entre o corrompido modelo de Balaão e o modelo do profetismo clássico do Antigo Testamento, representado por Amós, Miquéias, Oséias e Isaías, para citar somente alguns. 

Segundo PIXLEY e BOFF (1987), Amós desmascara como o amor ao luxo havia feito da piedade uma farsa através da exploração do indigente e do pobre (Amós 8.5-6). Miquéias foi um ardoroso defensor dos pobres em nome de Javé. O profeta camponês identifica a raiz do mal na classe dominante de Jerusalém, representada pelos seus reis, juízes, sacerdotes e profetas. Dito de outra forma, os Poderes institucionais e a liderança religiosa de Judá estava corrompida, a exemplo do que ocorre no Brasil.

Os autores PIXLEY e BOFF avaliam que "Oséias, mais do que Amós e Miquéias, denuncia como a religião é usada como cobertura enganosa para acumular riquezas. O pretenso javismo das classes dominantes não é no fundo mais do que culto a Baal, o deus da chuva e da abundância material. A religião virou prostituição, culto que não é feito por amor, mas por afã de lucro [...]" (p. 63).

É só analisar o contexto político nacional, avaliar a postura da Igreja e ler esses profetas para constatar a incrível semelhança da nossa realidade com a de Jerusalém! O que nos leva a conclamar: Profetas da atualidade, saiam das suas "zonas eclesiástica de conforto", despojem-se de seus interesses pessoais políticos e financeiros, arrependam-se do pecado da omissão diante da corrupção ativa ou passiva e da injustiça social que dominam a nação, releiam a Bíblia numa perspectiva teológica que aponta para "um Deus que optou pelos pobres concretos de Canaã e Egito e posteriormente,  na pessoa de Jesus, pelos pobres da Palestina judaico-tomana" (orelha do texto de PIXLEY e BOFF). Feito isdo, anunciem o Juízo de Deus contra a corrupção com ousadia, a não ser que já se sujaram nessa lama e estejam debaixo da mesma condenação, como em Romanos 3.10-12.

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Referências:
PIXLEY, Jorge e BOFF, Clodovis. Opção pelos pobres - 2.a ed. Petrópolis : Vozes, 1987.
SONGER, Harold. Tiago. In Comentário Bíblico Broadman - vol. 12. Rio de Janeiro : Juerp, 1985.

(*) Nelson Gervoni é teólogo anabatista, pedagogo, psicanalista e jornalista (MTb 75011/SP). É membro do MEP - Movimento Evangélico Progressista. Serve como pastor assistente na Igreja do Evangelho Eterno, em Campinas. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Religião e mito

Há uma forte resistência da parte de alguns líderes espirituais em reconhecer as influências míticas nas narrativas, símbolos e ícones das suas religiões. Parece que esse reconhecimento ameaça ou tira a legitimidade da fé. No entanto, um breve olhar nos escritos, crenças, práticas e costumes dessas religiões mostra o quanto a mitologia caminha ao lado da fé, até mesmo do(s) cristianismo(s). Nem mesmo a Bíblia - livro que para mim é a Palavra de Deus - escapa da influência dos mitos. Por exemplo, o dilúvio não é uma narrativa exclusiva dos hebreus. Outras religiões falam de seus dilúvios, inclusive as de matriz africana. Moisés - do Antigo Testamento - não foi, segundo as narrativas míticas, o único personagem fundador de nação a ser colocado num cesto a boiar nas águas de um rio. A mitologia diz a mesma coisa de Ciro (leia o texto "Moisés, um egípcio", de autoria de Sigmund Freud). O Logos (Verbo que se fez carne, Cristo) do Novo Testamento, por mais que teólogos conservadores resistam à ideia, tem fortes paralelos no logos da Filosofia Grega. O próprio nascimento milagroso do Filho de Deus, parece apresentar um paralelo assim. Na mitologia há narrativas de pássaros que engravidaram donzelas. Ora, o Espírito Santo, representado no NT por uma pomba engravidou misteriosamente a virgem Maria. 

Há um teólogo - e filósofo existencialista - interessante para se ler nessa discussão. Trata-se do alemão Rudolf Karl Bultmann (1884-1976). Sua tese central aborda a necessidade de se desmitologizar as Escrituras para a sua melhor compreensão, ou para a melhor compreensão da Revelação de Deus para o Homem. Para Bultmann, os cristãos dos primeiros séculos tinham uma mentalidade influenciada pela metafísica e pelos mitos, razão pela qual deram à mensagem de Cristo uma roupagem mítica e metafísica. O mesmo podemos afirmar do Antigo Testamento. Quando o autor do Gênesis elaborou a narrativa da Criação, o fez para um público desprovido das informações e referências que hoje dispomos. Seria incompreendido se dissesse, por exemplo, que o mundo foi criado durante intermináveis sete eras geológicas. Aliás, ele não poderia escrever assim, pois lhe faltava tal referente. 

Bem, antes que algum religioso brigue comigo nas páginas do Facebook, devo dizer que sou teólogo de formação (teólogo anabatista), creio em Deus e em Sua Palavra. No entanto, entendo que Deus, em sua Infinita Sabedoria, permitiu aos escritores da Bíblia se valerem de uma infinidade de estilos e categorias literárias, entre eles os mitos. Afinal, se engana quem pensa que mito é antônimo de verdade. Mais ainda se enganam os que pensam que mito é mentira. Os mitos, a exemplo do que ocorria com as parábolas tão usadas por Jesus, eram alegorias utilizadas para lançar luzes sobre o que estava desconhecido. Tanto é verdade que teóricos como Freud e Jung desenvolveram teorias psicológicas válidas até hoje, a partir de narrativas míticas, como o Complexo de Édipo e o Narcisismo (Freud) e o Complexo de Eletra (Jung).