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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

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sábado, 9 de julho de 2016

A corrupção no Brasil: um olhar profético e teológico a partir de uma adaptação de Tiago cap. 5 e da releitura do profetismo do AT

*Nelson Gervoni

O atual cenário político e econômico do país requer um olhar teológico que, bem apurado, interprete profeticamente a conjuntura e ofereça à Igreja e à sociedade em geral uma compreensão da ação de Deus nesse importante momento da história nacional. Afinal, é de se crer que Deus não esteja alheio a esse contexto. Outra contribuição desse olhar teológico é convencer importantes segmentos da Igreja que é seu papel ser "sal da terra" e "luz do mundo" (Mateus 5.13, 14) através de intervenções que, no mínimo, sejam portadoras do anúncio do Juízo Divino contra os causadores de todo esse mal. Isso porque tais segmentos, numa postura de conveniente acomodação, acredita - ou finge acreditar - que ser sal e luz se limite à pregação do púlpito e ao "evangelismo pessoal" e, quando muito, à ações assistencialistas que só fazem legitimar e perpetuar aquilo que se acredita combater.

Um olhar teológico assim, ajudaria na compreensão de que para Deus os pecados sociais, como a injustiça social - inclusive aquela causada pela corrupção - e o latifúndio, por exemplo, são tão danosos quanto (ou mais que) a idolatria, adultério, alcoolismo e outros pecados pessoais. Para citar uns poucos textos bíblicos, Isaías 5.8 condena o latifúndio dizendo "Ai dos que ajuntam casas e mais casas, dos que acrescentam um campo a outro, até que não haja mais onde alguém possa erguer sua casa, e eles se tornem os senhores absolutos da terra!" (BKJ A - Bíblia King James Atualizada). Ezequiel 16.49 investe contra ainjustiça social afirmando que "...esta foi a malignidade de tua irmã Sodoma: ela e suas filhas [cidades a ela ligadas] eram arrogantes; tiveram fartura de alimento e viviam sem a menor preocupação; não ajudavam os pobres e necessitados." (BKJ A, com entre chaves e grifo nossos).

Mas há outro texto que chama a atenção por ser perfeitamente aplicável (talvez com uma sincera e ligeira adaptação ao contexto brasileiro, como veremos) ao lamaçal de corrupção no qual se vê mergulhada a nossa pátria e à forma como a Igreja parece ignorar a realidade. Trata-se de Tiago 5, que segundo SONGER (1985, p. 121)   aborda "[...] uma situação em que as pessoas estavam professando a fé em Cristo e participando da comunidade cristã sem perceber as vastas implicações morais e éticas de tal envolvimento (2.14-26)", exatamente como fazem determinados segmentos cristãos, especialmente entre os evangélicos. 

Se lermos Tiago 5 com a proposta adaptação teremos no texto as expressões como veremos a seguir, a partir da BKJ A. (As adaptações colocamos em negrito).

E agora, prestai atenção, vós, os políticos e empresários corruptos! Chorai, não com lágrimas ensaiadas decrocodilo, e arrependei-vos, ao invés de negarem ardilosa e estrategicamente vossas falcatruas diante das camêras de TV, porquanto desgraças haverão de cair sobre vós, roubando vossos mandatos e cargos, assim como a liberdade e a paz vossa e de vossos familiares. 2. Vossas riquezas oriundas dos roubos e propinas apodreceram, e vossas roupas finas, compradas no exterior com dinheiro desviado, desvaneceram, roídas pela traça, representada pelos bloqueios decretados por magistrados em vossas vultuosas contas bancárias. 3. Vosso ouro e vossa prata aplicados em trust no exterior, todos estão oxidados. E a ferrugem deles testemunhará nas delações premiadas contra vós e, assim como o fogo, vos devorará a carne. Tendes acumulado bens demais nestes últimos tempos de mandatos manchados por vossas roubalheiras. 4. Eis que o salário dos dois milhões de trabalhadores desempregados que ceifaram os vossos campos e que vós, desonestamente, deixastes de pagar, desviando-o de forma a deixá-los desprovidos de saúde, educação e de tudo o que é essencial à vida, está clamando por justiça, não mais pela justiça falha e comprometida dos homens, mas pela Justiça Divina, e tais clamores chegaram aos ouvidos do Senhor dos Exércitos. 5. Tendes vivido regaladamente sobre a terra com o dinheiro sujo da corrupção, satisfazendo todos os vossos desejos e de vossas esposas e filhos omissos e coniventes, e tendes comido até vos fartardes em jantares caríssimos no exterior, bancados pelo dinheiro público, como em dias de festa. 6. Condenais e matais o justo que empobrecido morre à míngua, sem que ele tenha vos oferecido qualquer resistência, mesmo nas urnas eletrônicas que por vós foram manipuladas. 

Esse texto, mesmo sem essa adaptação, é emblemático do que Deus começou a fazer no Brasil, revelando com Sua Luz as entranhas apodrecidas dos Poderes Executivo e Legislativo - por enquanto esses dois - e dos sistemas financeiros reféns da ganância de um capitalismo corrompido pela imoralidade econômica. Semelhante a um amontoado de tábuas num quintal, que depois de anos é removido desalojando escorpiões e outras peçonhas que se tornam agressivos tentando se esconder da luz, assim é a ação revelatória de Deus sobre os porões escuros desse país. 

Assim, um olhar teológico mostraria que, como Igreja de Cristo, o que nos resta fazer é denunciar biblicamente não somente os pecados individuais ou pessoais, mas a iniquidade social que vitima milhões de pessoas. Afinal, se nos calarmos, as pedras clamarão em nosso lugar (Lucas 19.40), representadas pelo Judiciário, Ministério Público, Polícia Federal e outros órgãos. 

Esse olhar teológico mostraria que a Igreja Cristã executaria o seu querigma denunciatório principalmente - embora que não exclusivamente - através de seus pastores, que interveriam imparcialmente, sem interesses pessoais, políticos, ideológicos, econômicos e financeiros, influenciados pela Palavra de Deus e não pela mídia comprometida com o sistema.

A interpretação trazida por esse olhar apontaria para uma ação profética diferente daquela praticada por Balaão (Números 22-24), que teve que ser impedido por Deus para não se corromper pela propina de Balaque. Pois é triste constatar o quanto líderes evangélicos, presidentes de destacadas denominações pentecostais, renomados pregadores televisivos e proprietários de editoras do chamado "mundo gospel", com ou sem cargo legislativo, vêm copiando o modelo "balaãoneano". Como nas palavras do apóstolo Pedro (II, 2.15) "Eles se desviaram, abandonando o Caminho correto e seguindo o rastro de Balaão, filho de Beor, que se apaixonou pelo salário da injustiça..."

Esse tão necessário olhar teológico estabeleceria uma cortante distinção entre o corrompido modelo de Balaão e o modelo do profetismo clássico do Antigo Testamento, representado por Amós, Miquéias, Oséias e Isaías, para citar somente alguns. 

Segundo PIXLEY e BOFF (1987), Amós desmascara como o amor ao luxo havia feito da piedade uma farsa através da exploração do indigente e do pobre (Amós 8.5-6). Miquéias foi um ardoroso defensor dos pobres em nome de Javé. O profeta camponês identifica a raiz do mal na classe dominante de Jerusalém, representada pelos seus reis, juízes, sacerdotes e profetas. Dito de outra forma, os Poderes institucionais e a liderança religiosa de Judá estava corrompida, a exemplo do que ocorre no Brasil.

Os autores PIXLEY e BOFF avaliam que "Oséias, mais do que Amós e Miquéias, denuncia como a religião é usada como cobertura enganosa para acumular riquezas. O pretenso javismo das classes dominantes não é no fundo mais do que culto a Baal, o deus da chuva e da abundância material. A religião virou prostituição, culto que não é feito por amor, mas por afã de lucro [...]" (p. 63).

É só analisar o contexto político nacional, avaliar a postura da Igreja e ler esses profetas para constatar a incrível semelhança da nossa realidade com a de Jerusalém! O que nos leva a conclamar: Profetas da atualidade, saiam das suas "zonas eclesiástica de conforto", despojem-se de seus interesses pessoais políticos e financeiros, arrependam-se do pecado da omissão diante da corrupção ativa ou passiva e da injustiça social que dominam a nação, releiam a Bíblia numa perspectiva teológica que aponta para "um Deus que optou pelos pobres concretos de Canaã e Egito e posteriormente,  na pessoa de Jesus, pelos pobres da Palestina judaico-tomana" (orelha do texto de PIXLEY e BOFF). Feito isdo, anunciem o Juízo de Deus contra a corrupção com ousadia, a não ser que já se sujaram nessa lama e estejam debaixo da mesma condenação, como em Romanos 3.10-12.

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Referências:
PIXLEY, Jorge e BOFF, Clodovis. Opção pelos pobres - 2.a ed. Petrópolis : Vozes, 1987.
SONGER, Harold. Tiago. In Comentário Bíblico Broadman - vol. 12. Rio de Janeiro : Juerp, 1985.

(*) Nelson Gervoni é teólogo anabatista, pedagogo, psicanalista e jornalista (MTb 75011/SP). É membro do MEP - Movimento Evangélico Progressista. Serve como pastor assistente na Igreja do Evangelho Eterno, em Campinas. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Religião e mito

Há uma forte resistência da parte de alguns líderes espirituais em reconhecer as influências míticas nas narrativas, símbolos e ícones das suas religiões. Parece que esse reconhecimento ameaça ou tira a legitimidade da fé. No entanto, um breve olhar nos escritos, crenças, práticas e costumes dessas religiões mostra o quanto a mitologia caminha ao lado da fé, até mesmo do(s) cristianismo(s). Nem mesmo a Bíblia - livro que para mim é a Palavra de Deus - escapa da influência dos mitos. Por exemplo, o dilúvio não é uma narrativa exclusiva dos hebreus. Outras religiões falam de seus dilúvios, inclusive as de matriz africana. Moisés - do Antigo Testamento - não foi, segundo as narrativas míticas, o único personagem fundador de nação a ser colocado num cesto a boiar nas águas de um rio. A mitologia diz a mesma coisa de Ciro (leia o texto "Moisés, um egípcio", de autoria de Sigmund Freud). O Logos (Verbo que se fez carne, Cristo) do Novo Testamento, por mais que teólogos conservadores resistam à ideia, tem fortes paralelos no logos da Filosofia Grega. O próprio nascimento milagroso do Filho de Deus, parece apresentar um paralelo assim. Na mitologia há narrativas de pássaros que engravidaram donzelas. Ora, o Espírito Santo, representado no NT por uma pomba engravidou misteriosamente a virgem Maria. 

Há um teólogo - e filósofo existencialista - interessante para se ler nessa discussão. Trata-se do alemão Rudolf Karl Bultmann (1884-1976). Sua tese central aborda a necessidade de se desmitologizar as Escrituras para a sua melhor compreensão, ou para a melhor compreensão da Revelação de Deus para o Homem. Para Bultmann, os cristãos dos primeiros séculos tinham uma mentalidade influenciada pela metafísica e pelos mitos, razão pela qual deram à mensagem de Cristo uma roupagem mítica e metafísica. O mesmo podemos afirmar do Antigo Testamento. Quando o autor do Gênesis elaborou a narrativa da Criação, o fez para um público desprovido das informações e referências que hoje dispomos. Seria incompreendido se dissesse, por exemplo, que o mundo foi criado durante intermináveis sete eras geológicas. Aliás, ele não poderia escrever assim, pois lhe faltava tal referente. 

Bem, antes que algum religioso brigue comigo nas páginas do Facebook, devo dizer que sou teólogo de formação (teólogo anabatista), creio em Deus e em Sua Palavra. No entanto, entendo que Deus, em sua Infinita Sabedoria, permitiu aos escritores da Bíblia se valerem de uma infinidade de estilos e categorias literárias, entre eles os mitos. Afinal, se engana quem pensa que mito é antônimo de verdade. Mais ainda se enganam os que pensam que mito é mentira. Os mitos, a exemplo do que ocorria com as parábolas tão usadas por Jesus, eram alegorias utilizadas para lançar luzes sobre o que estava desconhecido. Tanto é verdade que teóricos como Freud e Jung desenvolveram teorias psicológicas válidas até hoje, a partir de narrativas míticas, como o Complexo de Édipo e o Narcisismo (Freud) e o Complexo de Eletra (Jung).

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Juiz de paz eclesiástico: um título no mínimo arriscado

Diante da onda dos chamados CURSOS DE JUIZ DE PAZ ECLESIÁSTICO, de curtíssima duração e carentes de um projeto que lhes dê um mínimo de estrutura pedagógica, supostamente amparados por um elenco de leis que não tratam mem de longe da pretensa função, visando principalmente pastores e líderes religiosos ávidos por um título honorífico ou por uma carteirinha de "autoridade", apresento algumas observações.

Quanto ao exercício da função de juiz de paz "eclesiástico", vale dizer que a lei 1.110 - que por sinal é de 1950 - não trata desta atividade, mas limita-se a regulamentar o casamento religioso e sua equivalência ao casamento civil, atos regulamentados pelo Código Civil Brasileiro em seus artigos 1515 e 1516. A lei 6.015 de 1973 também não versa sobre esta função, tratando dsos erviços concernentes aos Registros Públicos. O CBO - Classificação Brasileira de Ocupações, também não trata da função de juiz de paz eclesiástico, mas sobre as atribuições do teólogo e entre elas não está a de ser juiz de paz. Igualmente, o Código Civil Brasileiro em seus artigos 1515 e 1516, citado anteriormente, também não trata da função de juiz de paz eclesiástico.

Em resumo, não há nenhuma leis que venha a reger ou regulamentar essa função, que por isso não pode ser chamada de profissão. Por outro lado, acredito que um curso que vise qualificar pastores para a celebração de casamento, seja ele com reconhecimento cível ou apenas no âmbito religioso, seja válido e necessário. Entretanto, como pastor, pedagogo, especialista em educação, professor universitário e jornalista (as últimas quatro funções com registro legal no MEC e no Ministério do Trabalho), desejo apresentar como contribuição a sugestão para que o chamado "curso de juiz de paz eclesiástico" tenha seu nome mudado para "Curso de Qualificação para a Celebração de Casamento Religioso com Efeito Civil". Mesmo porque um curso que formasse um juiz, mesmo que eclesiástico, deveria ser, no mínimo, de nível superior, ou quiçá, no nível de pós-graduação. Talvez o nome do curso não seja tão atraente quanto o usado atualmente, mas será muito mais honesto.

Por último, quero sugerir humildemente que pastores que fizeram um curso dessa natureza e que tenham carteiras ou documentos com o Brasão Oficial da República, caso não sejam funcionários públicos concursados ou nomeados e com seus nomes e qualificações publicados no Diário Oficial da União, inutilizem essas "credenciais" para não sofrerem as penalizações previstas na Lei, entre elas a que trata da falsidade ideológica. 

sábado, 23 de janeiro de 2016

domingo, 22 de novembro de 2015

Recomendações a um teólogo recém-formado

Nelson Gervoni
Compartilho nesse artigo as palavras que disse recentemente numa cerimônia que presidi de Colação de Grau de Bacharel em Teologia, seguida de um ato de ordenação pastoral e que aqui intitulo “Recomendações a um teólogo recém-formado”. São atitudes básicas para quem deseja seguir a carreira da teologia, da docência teológica e do ministério pastoral ao mesmo tempo.
1. Atualize-se sempre
Essa primeira recomendação é bastante básica e, como tal, útil para qualquer formação que exige preparo acadêmico. Como qualquer curso, o de teologia não consegue contemplar em sua grade curricular todos os temas pertinentes à área. Assim, o teólogo deve continuar lendo a Bíblia e os livros. Paulo orientou a Timóteo a se aplicar à leitura (1 Tm 4.13b). Em 2 Timóteo 4.13 compreendemos que essa leitura se referia aos textos do Antigo Testamento (os pergaminhos) e aos demais livros úteis para o seu ministério. Ryrie (A Bíblia Comentada) afirma que “Às portas da morte, este missionário-prisioneiro ainda queria estudar!” O teólogo deve estudar sempre. Estudar a Bíblia, de onde vem a Revelação de Deus e os livros, de onde vem a compreensão de como o homem e a sociedade se relacionam com esta Revelação.
2. Seja mais misericordioso que crítico
A formação teológica aprimora o obreiro no conhecimento da Bíblia e das ciências que lhes são correlatas. Esse aprimoramento tende a deixá-lo mais analítico, criterioso e crítico. O “periscópio” com o qual ele analisa os fatos apesar dos obstáculos, fica mais bem calibrado. Consequentemente seu nível de tolerância cai e se torna penoso ouvir pessoas que não estejam ao menos no mesmo nível de conhecimento e compreensão que o seu. Aí, o teólogo deve se valer de um importante instrumento: a misericórdia. Ela é fruto da humildade que consegue reconhecer que há saberes diferentes dos seus, que são tão importantes quanto e, muitas vezes, maiores que eles, mesmo vindo de pessoas que considere menos qualificada ou capacitada que ele.
3. Busque equilíbrio entre ser teólogo e pastor
Se o teólogo buscou formação em atenção à vocação pastoral, deverá buscar equilibrar essas duas coisas que por vezes são tão parecidas e ao mesmo tempo tão distintas: ser teólogo e pastor. O teólogo é o homem da reflexão, da crítica, das ideias e da produção de conhecimento. O pastor é o homem que cuida da alma das almas, cura feridas, sofre junto com as ovelhas, lhes sendo “pai”, companheiro e amigo. Ser teólogo e pastor é viver um constante paradoxo. Há situações em que se deve ser mais pastor que teólogo, por exemplo, quando se está ao lado de um leito de uma ovelha paciente terminal. Mas há situações em que o pastor deve se revestir da sua teologia e confrontar as injustiças em todas as suas formas, a corrupção e a crueldade que mata pessoas tanto em Paris pelas armas do radicalismo religioso, quanto em Mariana pelas armas do capitalismo ganancioso. Veja Isaias 5.8 contra o latifúndio, Ezequiel 16.49 contra a injustiça social e Tiago 5.1-6 contra o capital que explora a mão de obra operária.
4. Busque equilíbrio entre o consenso e o dissenso
É duro admitir, mas como teólogos vivemos muito mais próximos do dissenso que do consenso. O dissenso propõe mais perguntas que respostas, mais dúvidas que certezas, questiona, desconstrói e ultrapassa limites. O dissenso é provocador e em seus arroubos nos leva a pensar fora da caixa – e até a cair dela – e sair da zona de conforto. Entretanto, como pastor o teólogo deverá buscar o consenso. O consenso nos tira do confronto e nos leva ao conforto – palavras muito parecidas, mas com sentidos opostos. O consenso aponta para a convergência, enquanto o dissenso atua no campo da divergência. O consenso nos aproxima da união, enquanto o dissenso nos deixa a pouca distância da dissensão, onde tanto há espaço para a diversidade de opinião quanto para a desavença. Veja Romanos 15.5-6.
5. Não fique no raso, mas cuidado com o excesso de profundidade
Vivemos uma era de muita futilidade e “rasismo” (desculpe o neologismo) em importantes áreas da vida. As mídias sociais são um exemplo disso. Outro exemplo é a escassez de sentido na música, tanto na popular quanto na chamada “música gospel”. A música popular carece de poesia e a música gospel comercial necessita de unção.  A pregação da Palavra há muito desprezou os princípios mais elementares da exegese e da hermenêutica. Os métodos de interpretação histórico-gramatical ou histórico-crítico da Bíblia ou foram desprezados ou trocados por alegorias fantasiosas ao gosto do pregador. O teólogo não pode se contentar com o raso. Como no texto de Ezequiel 47 o teólogo deve começar com as águas pelos artelhos, depois pelos joelhos, pelos lombos, até chegar às águas profundas. No entanto, deverá tomar cuidado com a profundidade, pois como disse o Pregador, não é recomendável ser “[...] demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?” (Eclesiastes 7.16). Há teólogos – professores e/ou pastores – que mergulham em profundidades das quais não conseguem sair para respirar. Outros são tão profundos, mas tão profundos, que com eles nada vem à superfície. Aí, as pessoas saem de suas aulas ou sermões com pouco ou nenhum entendimento.
6. Que a oração seja a alavanca da sua teologia
Para teólogos cristãos a Bíblia será sempre a sua base, seu ponto de partida. Mas ele necessitará ainda de um instrumento que alavanque sua compreensão daquilo que Deus quer revelar a ele e dele para as demais pessoas, através de seus sermões, aulas ou artigos. Tenho definido a teologia como a “ciência” que “estuda” Deus e sua relação com tudo quanto ele criou. Isso exige uma compreensão que só se consegue através da Revelação, que por sua vez só se dá através da oração. Daniel “recebeu uma revelação divina” e “compreendeu bem a mensagem” (10.1 - Versão King James), mas mesmo assim, teve que aplicar humildemente o coração em oração por 21 dias para “buscar entendimento” do que lhe foi revelado. (10.12 - KJ). O teólogo recebe uma revelação, tem uma compreensão geral dos acontecimentos, mas necessita orar para entender o que de fato está ocorrendo. Batista Mondin (Antropologia Teológica, p. 27) afirma que “Os teólogos autênticos foram sempre também grandes homens de oração.” Ele afirma que Tomás de Aquino passava longas horas de oração “antes de dirigir-se ao escritório para ditar aos auxiliares as páginas da Suma Teológica.”

domingo, 15 de novembro de 2015

Matamos em obediência a Alá - Entrevista com extremistas islâmicos

Por Nelson Gervoni

Inconformado com a tragédia que enlutou a França e o mundo na última sexta-feira, me propus a entender o que leva homens “religiosos” a praticarem tamanha barbárie. Me valendo do meu registro de jornalista me arrisquei numa entrevista com três extremistas que me responderam algumas perguntas e me autorizaram a dizer seus nomes. São eles Zayn Samir Kalil, Mohammed Youssef Said e Faruk Aziz Osman.

Já no início da entrevista Kalil fez questão de esclarecer três coisas. Primeiramente deixou claro que Alá é o mesmo Deus no qual creem os judeus e cristãos. Alá, disse ele, é o nome do Deus que criou todas as coisas, transmitiu a Lei a Moisés, para os judeus, e depois ao profeta Maomé, para os muçulmanos. Em segundo lugar afirmou que não participaram dos ataques, mas creem que os atos são justificáveis diante de Alá e do Alcorão. Por último, falou sobre os demais irmãos muçulmanos não extremistas, deixando claro que a maioria islâmica não age com o radicalismo que eles defendem.

Pergunta a Kalil: Por que tanta intolerância contra os ocidentais?

Resposta: Os ocidentais carregam vírus que penetram e permanecem corroendo e destruindo os ensinamentos do Alcorão em todo o mundo. Desenvolvem modos estranhos aos seguidores de Alá: eles invadem nossos arraiais na forma de modismos, paganizam os princípios do Alcorão com seus liberalismos, humanismos e formas de lazer e prazer mundanos.

Said complementa: Embora essa prática que vocês chamam de extremista pareça severa, se trata de uma punição justa decretada por Alá.

Pergunta a Osman: Mas ataques dessa natureza não matam só inocentes, que nada tem a ver com isso que vocês alegam, inclusive crianças inocentes?

Resposta: Os que morreram estavam longe de ser inocentes. Eles eram totalmente depravados, além de que desejavam destruir o Islã que é o povo escolhido de Alá. A destruição deles se fazia necessária pela gravidade de seu pecado. Em caso contrário, algum remanescente de coração endurecido poderia surgir e retomar a sua odiosa disposição contra o Islã e os planos de Alá.

Quanto à questão das crianças inocentes - continua Osman - algumas observações são relevantes. Vou colocar três coisas importantes. Primeiro, todos nós nascemos em pecado e merecemos a morte. Um dia, todos seremos tomados por Alá através da morte. É apenas uma questão de tempo. Segundo, Alá é soberano sobre a vida e reserva para si o direito de tomá-la quando quiser. Terceiro, todas as crianças que morrem antes da idade da responsabilidade são salvas.

Nova pergunta a Osman: Mas isso não seria falta de misericórdia de Alá?

Resposta de Osman: Isso está longe de ser falta de misericórdia. Dado o estado canceroso da sociedade em que nasceram, essas crianças não tinham chance alguma de evitar sua fatal contaminação. Na realidade foi sim um ato de misericórdia de Alá, tomá-las de um ambiente tão pervertido para a sua santa presença.

Outra pergunta a Osman: Você não considera que essas explicações carecem de uma justificativa moral?

Resposta de Osman: Não. A justificativa moral para tal ação encontra-se no fato de que Alá tem o direito de dar e de tomar a vida. Como o salário do pecado é a morte, e como essas pessoas se envolvem em pecados terríveis, elas apenas colheram as consequências da vingança de Alá sobre elas.

Após essa resposta me senti muito mal e pedi para encerrar a entrevista.

Eu só queria me desculpar pelo fato de que não existem os extremistas Kalil, Said ou Osman. Eu os inventei para escrever esse artigo em forma de entrevista. Todas as respostas foram retiradas de comentários bíblicos desenvolvidos por teólogos protestantes e/ou evangélicos para explicar por que Deus mandou matar pessoas em Números 31.17 e I Samuel 15.3.

As palavras de Zayn Samir Kalil, com exceção do início da "entrevista", foram adaptadas do comentário de 1 Samuel 15 da Bíblia King James. O complemento feito por Mohammed Youssef Said foi extraído do comentário de 1 Samuel 15 da Bíblia Anotada, de Charles Caldwell Ryrie. As respostas de Faruk Aziz Osman são as mesmas dos teólogos evangélicos Norman Geisler e Thomas Howe, da Enciclopédia Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições da Bíblia”, da Editora Mundo Cristão, comentando as duas referências.

Quero deixar claro o meu repúdio a toda e qualquer forma de morte e violência sob qualquer argumento ou justificativa, principalmente os de cunho religioso e extremista, como são os casos de terrorismo praticados pelo Boko Haram, Al-Qaeda, Estado Islâmico e outras organizações fundamentalistas islâmicas. Meu objetivo teológico (sou jornalista mas sou teólogo) é levar o leitor a fazer a seguinte reflexão: Por que é errado matar em nome de Alá (dos muçulmanos) e foi justificável matar em nome de Deus (dos judeus e dos cristãos) nos tempos do Antigo Testamento? As justificativas do terrorismo para suas matanças não seriam as mesmas dos teólogos conservadores cristãos para as matanças do Antigo Testamento? 

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Pós-Graduação em Teologia


"GOVERNO" DE IGREJA: haveria um modelo ideal?

Nelson Gervoni

Um velho amigo, líder de uma igreja que está se formando na Região de Campinas, me perguntou in box no Facebook quais são, na minha opinião os “pontos positivos ou negativos de um governo de igreja, no regime Teocrático?” Sua pergunta buscava algum subsídio para a elaboração do estatuto da nova igreja. Disse a ele que gostaria de me aprofundar um pouco na resposta, pois ao meu ver, governo de igreja é um dos mais complexos e importantes assuntos teológicos - do campo da eclesiologia -, pois implica diretamente naquilo que líderes religiosos fizeram na História do Cristianismo, em especial de Constantino para cá, e que continuam fazendo com a Noiva de Cristo sob o pretexto de "governá-la".

Quero iniciar minha modesta resposta afirmando a incongruência do conceito de “governo de Igreja”. Afinal, se é verdade que os evangélicos acreditam na doutrina de que a igreja é a Noiva de Cristo, quem estaria à altura de governar a esposa do Rei, se não ele próprio? Na realidade o que se pretende na pergunta do amigo é regulamentar ou regimentar as formas como os líderes da igreja tratarão as relações humanas do poder que supõe ter sobre a comunidade cristã. O que pretendem definir - e isso não serve só para a igreja do meu amigo - é quem mandará em quem e no que, de que forma e se por um período de tempo ou vitaliciamente na comunidade.

Acredito que não seria radical ou indelicado se sugerisse que numa situação como essa procurassem consultar o Novo Testamento e a maneira como essas questões eram tratadas na igreja primitiva. Ali veriam algumas coisas interessantes. Por exemplo, embora os apóstolos tecessem uma consistente teia doutrinária que trouxe parâmetro às igrejas, nenhum deles se achava dono de nenhuma delas. Tanto é que Pedro disse aos presbíteros (bispos e pastores): “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus [a igreja], mas servindo de exemplo ao rebanho.” (1 Pe 5.2-3). Veriam também que não havia uma Igreja Sede - nem mesmo a de Jerusalém - que submetia as demais ao seu poder, muito menos havia um bispo que mandava nos pastores e nas igrejas. Mas como então havia ordem, união e fraternidade entre as igrejas, se não havia um governo humano sobre elas? Atos 2.41-47 explica esse mistério.

Quem sabe toda essa questão repouse naquilo que meu amigo em sua pergunta chamou de “regime Teocrático”. Para chegarmos essa possibilidade precisamos conceituar o termo. Primeiramente não sejamos tão ingênuos definindo teocracia simplesmente como um regime onde Deus é quem manda. Há por aí um discurso nessa direção, entretanto, mal intencionado, pois tende quase sempre a indicar algum líder como alguém que “recebe a direção de Deus” para transmiti-la ao povo. Nesse caso, não passa de “indivíduocracia” (governo e um só), mascarda de teocracia. Teocracia é um “Regime político em que o poder supremo é exercido por uma classe sacerdotal acumulando ao mesmo tempo poder civil ou temporal e o poder religioso ou espiritual. [...] Por extensão, toda concepção de Estado considerando que o poder político temporal precisa estar subordinado ao poder espiritual ou religioso." (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2006, p. 265). No Antigo Testamento a teocracia não estava ligada somente à elite sacerdotal, mas ainda à monarquia. Entretanto, isso não garantia a sua lisura, haja vista as narrativas dos livros de Samuel, Reis e Crônicas, repletas de corrupções reais e sacerdotais. Além dos sacerdotes e dos reis, os profetas também contribuíam com a formação teocrática. “A natureza teocrática da monarquia de Israel é conformada, por exemplo, pela prerrogativa dos profetas destronarem os reis [...]” (CHAMPLIN e BENTES, 1991, vol. 6, p. 461). Outro dado importante é que o termo teocracia sequer aparece na Bíblia, tendo sido cunhado possivelmente por Flávio Josefo, que como quase todo historiador privilegiava os poderosos em seus registros.
Se estamos falando da teocracia como alguma coisa ligada ao sacerdócio, à monarquia e aos profetas de Israel, conceitos estritos ao Antigo Testamento, não podemos associá-la à Igreja de Cristo, razão de ser do Novo Testamento. Trazer o conceito de teocracia para a Igreja de Cristo é alterar a sua essência. A Bíblia diz que “A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus...” (Lucas 16.16). Também devemos considerar a clássica doutrina do sacerdócio universal de todos os cristãos. (1 Pedro 2.9-10), que inviabiliza o engano da “teocracia de um só sacerdote”, altamente defendida por líderes que se isolam no poder em nome de uma revelação que só a ele foi outorgada.

Outra questão interessante aventada pelo colega é a que trata do estatuto das igrejas, documento jurídico que rege as relações da comunidade com a sociedade e as autoridades, baseado no Código Civil. Pouca coisa tem sido tratada com tanta hipocrisia pelas igrejas quanto isso. Se dermos uma olhadela nos artigos 53 a 62 dessa lei, veremos o quanto o que é escrito não é cumprido. Dito de outra forma, o estatuto da igreja deve se pautar pelo Código Civil, entretanto, o Código determina condutas que as lideranças das igrejas sequer se referem, embora assinam o estatuto em cartório para obter o documento legal. Por exemplo, falando das instituições nas quais a igreja está incluída, explica Miguel Reale que “Quanto à sua administração, o Art. 59 estatui que caberá à assembleia geral dos associados eleger os seus dirigentes, a fim de que grupos privilegiados não se eternizem nas posições de mando”. Ou seja, todos os membros, reunidos em assembleia, têm o direito e o dever de escolherem seus líderes, inclusive pastores. Entretanto, embora para obterem o registro em cartório isso deve estar incluso no estatuto, poucas igrejas observam esse dispositivo. Alguns líderes dirão que isso não é bíblico. Pessoalmente, baseado em Atos 15, acredito que a Bíblia se antecipou ao Código Civil nesse aspecto. No v. 22 lemos que “Então os apóstolos e os presbíteros, COM TODA A IGREJA, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos.” (maiúsculas acrescentadas).

Mas digamos que nem todos concordem com a biblicidade disso. Nesse caso deveriam evitar a hipocrisia e rejeitar o registro da igreja em Cartório, baseado em pelo menos duas razões: (1) “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (Atos 5.29); e (2) evitar-se-ia nesse item o casamento da Igreja com o Estado, resultando muito mais numa igreja simples como foram os cristãos primitivos que numa igreja envolvida em pecados, inclusive os de corrupção, como se viu no passado histórico da igreja e atualmente. Afinal de contas, é ético ou moral registrar em Cartório um estatuto apenas para dizer que tem, mas não cumpri-lo, e o que é pior, esconder isso dos membros?
A pergunta do meu amigo gira em torno de modelo eclesiástico de igreja. Episcopal, presbiterial, congregacional, etc. Ao meu ver o modelo episcopal - onde um pastor maior manda nos demais e em suas igrejas - é um dos resultados do paganismo na igreja (convido-os a lerem o livro “Cristianismo pagão ", de Frank Viola, disponível gratuitamente em PDF na internet). O modelo presbiterial, onde um presbitério ou uma junta, à luz da Palavra, ajuda o pastor em suas decisões, é bastante saudável. O modelo congregacional, onde a igreja, também orientada pela Bíblia, é corresponsável com sua diretoria e com seu pastor por suas decisões, ao meu ver é o mais bíblico e não cria problemas éticos ou legais com o Código Civil.

Por outro lado, em todos os modelos se faltar o bom senso, as coisas na organização não darão certo. O que se deve evitar é uma forma de igreja onde o pastor se perpetue - seja vitalício - e que muito menos prepare a igreja como herança para seus filhos. Uma igreja onde os membros são levados a contribuir sem o direito de saber como seus líderes estão administrando o dinheiro. Uma igreja onde não se pode saber quantos pastores são assalariados e quanto ganha cada um. Deve se evitar uma igreja onde receitas e despesas são tratadas como “segredo de estado”, onde não há transparência financeira, pois onde falta transparência financeira, possivelmente faltarão outras formas de transparência.
Na igreja primitiva todos os que criam se mantinham unidos e tinham tudo em comum. (Atos 2.44). Se não é mais possível se ter em comum os bens materiais como faziam os primeiros discípulos, que tenhamos em comum pelo menos as informações sobre o que acontece no Corpo do qual somos membros.

Nota: Este artigo não é uma "crítica à noiva de Cristo", como diz o discurso dos "teocráticos" que não querem ser avaliados. Antes é uma crítica aqueles que, ao conduzirem a Noiva ao encontro do Cordeiro, o fazem de forma desleal, como que abusando dela durante o caminho.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

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