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terça-feira, 13 de outubro de 2015

"GOVERNO" DE IGREJA: haveria um modelo ideal?

Nelson Gervoni

Um velho amigo, líder de uma igreja que está se formando na Região de Campinas, me perguntou in box no Facebook quais são, na minha opinião os “pontos positivos ou negativos de um governo de igreja, no regime Teocrático?” Sua pergunta buscava algum subsídio para a elaboração do estatuto da nova igreja. Disse a ele que gostaria de me aprofundar um pouco na resposta, pois ao meu ver, governo de igreja é um dos mais complexos e importantes assuntos teológicos - do campo da eclesiologia -, pois implica diretamente naquilo que líderes religiosos fizeram na História do Cristianismo, em especial de Constantino para cá, e que continuam fazendo com a Noiva de Cristo sob o pretexto de "governá-la".

Quero iniciar minha modesta resposta afirmando a incongruência do conceito de “governo de Igreja”. Afinal, se é verdade que os evangélicos acreditam na doutrina de que a igreja é a Noiva de Cristo, quem estaria à altura de governar a esposa do Rei, se não ele próprio? Na realidade o que se pretende na pergunta do amigo é regulamentar ou regimentar as formas como os líderes da igreja tratarão as relações humanas do poder que supõe ter sobre a comunidade cristã. O que pretendem definir - e isso não serve só para a igreja do meu amigo - é quem mandará em quem e no que, de que forma e se por um período de tempo ou vitaliciamente na comunidade.

Acredito que não seria radical ou indelicado se sugerisse que numa situação como essa procurassem consultar o Novo Testamento e a maneira como essas questões eram tratadas na igreja primitiva. Ali veriam algumas coisas interessantes. Por exemplo, embora os apóstolos tecessem uma consistente teia doutrinária que trouxe parâmetro às igrejas, nenhum deles se achava dono de nenhuma delas. Tanto é que Pedro disse aos presbíteros (bispos e pastores): “Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, tendo cuidado dele, não por força, mas voluntariamente; nem por torpe ganância, mas de ânimo pronto; Nem como tendo domínio sobre a herança de Deus [a igreja], mas servindo de exemplo ao rebanho.” (1 Pe 5.2-3). Veriam também que não havia uma Igreja Sede - nem mesmo a de Jerusalém - que submetia as demais ao seu poder, muito menos havia um bispo que mandava nos pastores e nas igrejas. Mas como então havia ordem, união e fraternidade entre as igrejas, se não havia um governo humano sobre elas? Atos 2.41-47 explica esse mistério.

Quem sabe toda essa questão repouse naquilo que meu amigo em sua pergunta chamou de “regime Teocrático”. Para chegarmos essa possibilidade precisamos conceituar o termo. Primeiramente não sejamos tão ingênuos definindo teocracia simplesmente como um regime onde Deus é quem manda. Há por aí um discurso nessa direção, entretanto, mal intencionado, pois tende quase sempre a indicar algum líder como alguém que “recebe a direção de Deus” para transmiti-la ao povo. Nesse caso, não passa de “indivíduocracia” (governo e um só), mascarda de teocracia. Teocracia é um “Regime político em que o poder supremo é exercido por uma classe sacerdotal acumulando ao mesmo tempo poder civil ou temporal e o poder religioso ou espiritual. [...] Por extensão, toda concepção de Estado considerando que o poder político temporal precisa estar subordinado ao poder espiritual ou religioso." (JAPIASSÚ e MARCONDES, 2006, p. 265). No Antigo Testamento a teocracia não estava ligada somente à elite sacerdotal, mas ainda à monarquia. Entretanto, isso não garantia a sua lisura, haja vista as narrativas dos livros de Samuel, Reis e Crônicas, repletas de corrupções reais e sacerdotais. Além dos sacerdotes e dos reis, os profetas também contribuíam com a formação teocrática. “A natureza teocrática da monarquia de Israel é conformada, por exemplo, pela prerrogativa dos profetas destronarem os reis [...]” (CHAMPLIN e BENTES, 1991, vol. 6, p. 461). Outro dado importante é que o termo teocracia sequer aparece na Bíblia, tendo sido cunhado possivelmente por Flávio Josefo, que como quase todo historiador privilegiava os poderosos em seus registros.
Se estamos falando da teocracia como alguma coisa ligada ao sacerdócio, à monarquia e aos profetas de Israel, conceitos estritos ao Antigo Testamento, não podemos associá-la à Igreja de Cristo, razão de ser do Novo Testamento. Trazer o conceito de teocracia para a Igreja de Cristo é alterar a sua essência. A Bíblia diz que “A Lei e os Profetas profetizaram até João. Desse tempo em diante estão sendo pregadas as boas novas do Reino de Deus...” (Lucas 16.16). Também devemos considerar a clássica doutrina do sacerdócio universal de todos os cristãos. (1 Pedro 2.9-10), que inviabiliza o engano da “teocracia de um só sacerdote”, altamente defendida por líderes que se isolam no poder em nome de uma revelação que só a ele foi outorgada.

Outra questão interessante aventada pelo colega é a que trata do estatuto das igrejas, documento jurídico que rege as relações da comunidade com a sociedade e as autoridades, baseado no Código Civil. Pouca coisa tem sido tratada com tanta hipocrisia pelas igrejas quanto isso. Se dermos uma olhadela nos artigos 53 a 62 dessa lei, veremos o quanto o que é escrito não é cumprido. Dito de outra forma, o estatuto da igreja deve se pautar pelo Código Civil, entretanto, o Código determina condutas que as lideranças das igrejas sequer se referem, embora assinam o estatuto em cartório para obter o documento legal. Por exemplo, falando das instituições nas quais a igreja está incluída, explica Miguel Reale que “Quanto à sua administração, o Art. 59 estatui que caberá à assembleia geral dos associados eleger os seus dirigentes, a fim de que grupos privilegiados não se eternizem nas posições de mando”. Ou seja, todos os membros, reunidos em assembleia, têm o direito e o dever de escolherem seus líderes, inclusive pastores. Entretanto, embora para obterem o registro em cartório isso deve estar incluso no estatuto, poucas igrejas observam esse dispositivo. Alguns líderes dirão que isso não é bíblico. Pessoalmente, baseado em Atos 15, acredito que a Bíblia se antecipou ao Código Civil nesse aspecto. No v. 22 lemos que “Então os apóstolos e os presbíteros, COM TODA A IGREJA, decidiram escolher alguns dentre eles e enviá-los a Antioquia com Paulo e Barnabé. Escolheram Judas, chamado Barsabás, e Silas, dois líderes entre os irmãos.” (maiúsculas acrescentadas).

Mas digamos que nem todos concordem com a biblicidade disso. Nesse caso deveriam evitar a hipocrisia e rejeitar o registro da igreja em Cartório, baseado em pelo menos duas razões: (1) “É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens!” (Atos 5.29); e (2) evitar-se-ia nesse item o casamento da Igreja com o Estado, resultando muito mais numa igreja simples como foram os cristãos primitivos que numa igreja envolvida em pecados, inclusive os de corrupção, como se viu no passado histórico da igreja e atualmente. Afinal de contas, é ético ou moral registrar em Cartório um estatuto apenas para dizer que tem, mas não cumpri-lo, e o que é pior, esconder isso dos membros?
A pergunta do meu amigo gira em torno de modelo eclesiástico de igreja. Episcopal, presbiterial, congregacional, etc. Ao meu ver o modelo episcopal - onde um pastor maior manda nos demais e em suas igrejas - é um dos resultados do paganismo na igreja (convido-os a lerem o livro “Cristianismo pagão ", de Frank Viola, disponível gratuitamente em PDF na internet). O modelo presbiterial, onde um presbitério ou uma junta, à luz da Palavra, ajuda o pastor em suas decisões, é bastante saudável. O modelo congregacional, onde a igreja, também orientada pela Bíblia, é corresponsável com sua diretoria e com seu pastor por suas decisões, ao meu ver é o mais bíblico e não cria problemas éticos ou legais com o Código Civil.

Por outro lado, em todos os modelos se faltar o bom senso, as coisas na organização não darão certo. O que se deve evitar é uma forma de igreja onde o pastor se perpetue - seja vitalício - e que muito menos prepare a igreja como herança para seus filhos. Uma igreja onde os membros são levados a contribuir sem o direito de saber como seus líderes estão administrando o dinheiro. Uma igreja onde não se pode saber quantos pastores são assalariados e quanto ganha cada um. Deve se evitar uma igreja onde receitas e despesas são tratadas como “segredo de estado”, onde não há transparência financeira, pois onde falta transparência financeira, possivelmente faltarão outras formas de transparência.
Na igreja primitiva todos os que criam se mantinham unidos e tinham tudo em comum. (Atos 2.44). Se não é mais possível se ter em comum os bens materiais como faziam os primeiros discípulos, que tenhamos em comum pelo menos as informações sobre o que acontece no Corpo do qual somos membros.

Nota: Este artigo não é uma "crítica à noiva de Cristo", como diz o discurso dos "teocráticos" que não querem ser avaliados. Antes é uma crítica aqueles que, ao conduzirem a Noiva ao encontro do Cordeiro, o fazem de forma desleal, como que abusando dela durante o caminho.