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domingo, 22 de novembro de 2015

Recomendações a um teólogo recém-formado

Nelson Gervoni
Compartilho nesse artigo as palavras que disse recentemente numa cerimônia que presidi de Colação de Grau de Bacharel em Teologia, seguida de um ato de ordenação pastoral e que aqui intitulo “Recomendações a um teólogo recém-formado”. São atitudes básicas para quem deseja seguir a carreira da teologia, da docência teológica e do ministério pastoral ao mesmo tempo.
1. Atualize-se sempre
Essa primeira recomendação é bastante básica e, como tal, útil para qualquer formação que exige preparo acadêmico. Como qualquer curso, o de teologia não consegue contemplar em sua grade curricular todos os temas pertinentes à área. Assim, o teólogo deve continuar lendo a Bíblia e os livros. Paulo orientou a Timóteo a se aplicar à leitura (1 Tm 4.13b). Em 2 Timóteo 4.13 compreendemos que essa leitura se referia aos textos do Antigo Testamento (os pergaminhos) e aos demais livros úteis para o seu ministério. Ryrie (A Bíblia Comentada) afirma que “Às portas da morte, este missionário-prisioneiro ainda queria estudar!” O teólogo deve estudar sempre. Estudar a Bíblia, de onde vem a Revelação de Deus e os livros, de onde vem a compreensão de como o homem e a sociedade se relacionam com esta Revelação.
2. Seja mais misericordioso que crítico
A formação teológica aprimora o obreiro no conhecimento da Bíblia e das ciências que lhes são correlatas. Esse aprimoramento tende a deixá-lo mais analítico, criterioso e crítico. O “periscópio” com o qual ele analisa os fatos apesar dos obstáculos, fica mais bem calibrado. Consequentemente seu nível de tolerância cai e se torna penoso ouvir pessoas que não estejam ao menos no mesmo nível de conhecimento e compreensão que o seu. Aí, o teólogo deve se valer de um importante instrumento: a misericórdia. Ela é fruto da humildade que consegue reconhecer que há saberes diferentes dos seus, que são tão importantes quanto e, muitas vezes, maiores que eles, mesmo vindo de pessoas que considere menos qualificada ou capacitada que ele.
3. Busque equilíbrio entre ser teólogo e pastor
Se o teólogo buscou formação em atenção à vocação pastoral, deverá buscar equilibrar essas duas coisas que por vezes são tão parecidas e ao mesmo tempo tão distintas: ser teólogo e pastor. O teólogo é o homem da reflexão, da crítica, das ideias e da produção de conhecimento. O pastor é o homem que cuida da alma das almas, cura feridas, sofre junto com as ovelhas, lhes sendo “pai”, companheiro e amigo. Ser teólogo e pastor é viver um constante paradoxo. Há situações em que se deve ser mais pastor que teólogo, por exemplo, quando se está ao lado de um leito de uma ovelha paciente terminal. Mas há situações em que o pastor deve se revestir da sua teologia e confrontar as injustiças em todas as suas formas, a corrupção e a crueldade que mata pessoas tanto em Paris pelas armas do radicalismo religioso, quanto em Mariana pelas armas do capitalismo ganancioso. Veja Isaias 5.8 contra o latifúndio, Ezequiel 16.49 contra a injustiça social e Tiago 5.1-6 contra o capital que explora a mão de obra operária.
4. Busque equilíbrio entre o consenso e o dissenso
É duro admitir, mas como teólogos vivemos muito mais próximos do dissenso que do consenso. O dissenso propõe mais perguntas que respostas, mais dúvidas que certezas, questiona, desconstrói e ultrapassa limites. O dissenso é provocador e em seus arroubos nos leva a pensar fora da caixa – e até a cair dela – e sair da zona de conforto. Entretanto, como pastor o teólogo deverá buscar o consenso. O consenso nos tira do confronto e nos leva ao conforto – palavras muito parecidas, mas com sentidos opostos. O consenso aponta para a convergência, enquanto o dissenso atua no campo da divergência. O consenso nos aproxima da união, enquanto o dissenso nos deixa a pouca distância da dissensão, onde tanto há espaço para a diversidade de opinião quanto para a desavença. Veja Romanos 15.5-6.
5. Não fique no raso, mas cuidado com o excesso de profundidade
Vivemos uma era de muita futilidade e “rasismo” (desculpe o neologismo) em importantes áreas da vida. As mídias sociais são um exemplo disso. Outro exemplo é a escassez de sentido na música, tanto na popular quanto na chamada “música gospel”. A música popular carece de poesia e a música gospel comercial necessita de unção.  A pregação da Palavra há muito desprezou os princípios mais elementares da exegese e da hermenêutica. Os métodos de interpretação histórico-gramatical ou histórico-crítico da Bíblia ou foram desprezados ou trocados por alegorias fantasiosas ao gosto do pregador. O teólogo não pode se contentar com o raso. Como no texto de Ezequiel 47 o teólogo deve começar com as águas pelos artelhos, depois pelos joelhos, pelos lombos, até chegar às águas profundas. No entanto, deverá tomar cuidado com a profundidade, pois como disse o Pregador, não é recomendável ser “[...] demasiadamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?” (Eclesiastes 7.16). Há teólogos – professores e/ou pastores – que mergulham em profundidades das quais não conseguem sair para respirar. Outros são tão profundos, mas tão profundos, que com eles nada vem à superfície. Aí, as pessoas saem de suas aulas ou sermões com pouco ou nenhum entendimento.
6. Que a oração seja a alavanca da sua teologia
Para teólogos cristãos a Bíblia será sempre a sua base, seu ponto de partida. Mas ele necessitará ainda de um instrumento que alavanque sua compreensão daquilo que Deus quer revelar a ele e dele para as demais pessoas, através de seus sermões, aulas ou artigos. Tenho definido a teologia como a “ciência” que “estuda” Deus e sua relação com tudo quanto ele criou. Isso exige uma compreensão que só se consegue através da Revelação, que por sua vez só se dá através da oração. Daniel “recebeu uma revelação divina” e “compreendeu bem a mensagem” (10.1 - Versão King James), mas mesmo assim, teve que aplicar humildemente o coração em oração por 21 dias para “buscar entendimento” do que lhe foi revelado. (10.12 - KJ). O teólogo recebe uma revelação, tem uma compreensão geral dos acontecimentos, mas necessita orar para entender o que de fato está ocorrendo. Batista Mondin (Antropologia Teológica, p. 27) afirma que “Os teólogos autênticos foram sempre também grandes homens de oração.” Ele afirma que Tomás de Aquino passava longas horas de oração “antes de dirigir-se ao escritório para ditar aos auxiliares as páginas da Suma Teológica.”