segunda-feira, 18 de abril de 2016

Religião e mito

Há uma forte resistência da parte de alguns líderes espirituais em reconhecer as influências míticas nas narrativas, símbolos e ícones das suas religiões. Parece que esse reconhecimento ameaça ou tira a legitimidade da fé. No entanto, um breve olhar nos escritos, crenças, práticas e costumes dessas religiões mostra o quanto a mitologia caminha ao lado da fé, até mesmo do(s) cristianismo(s). Nem mesmo a Bíblia - livro que para mim é a Palavra de Deus - escapa da influência dos mitos. Por exemplo, o dilúvio não é uma narrativa exclusiva dos hebreus. Outras religiões falam de seus dilúvios, inclusive as de matriz africana. Moisés - do Antigo Testamento - não foi, segundo as narrativas míticas, o único personagem fundador de nação a ser colocado num cesto a boiar nas águas de um rio. A mitologia diz a mesma coisa de Ciro (leia o texto "Moisés, um egípcio", de autoria de Sigmund Freud). O Logos (Verbo que se fez carne, Cristo) do Novo Testamento, por mais que teólogos conservadores resistam à ideia, tem fortes paralelos no logos da Filosofia Grega. O próprio nascimento milagroso do Filho de Deus, parece apresentar um paralelo assim. Na mitologia há narrativas de pássaros que engravidaram donzelas. Ora, o Espírito Santo, representado no NT por uma pomba engravidou misteriosamente a virgem Maria. 

Há um teólogo - e filósofo existencialista - interessante para se ler nessa discussão. Trata-se do alemão Rudolf Karl Bultmann (1884-1976). Sua tese central aborda a necessidade de se desmitologizar as Escrituras para a sua melhor compreensão, ou para a melhor compreensão da Revelação de Deus para o Homem. Para Bultmann, os cristãos dos primeiros séculos tinham uma mentalidade influenciada pela metafísica e pelos mitos, razão pela qual deram à mensagem de Cristo uma roupagem mítica e metafísica. O mesmo podemos afirmar do Antigo Testamento. Quando o autor do Gênesis elaborou a narrativa da Criação, o fez para um público desprovido das informações e referências que hoje dispomos. Seria incompreendido se dissesse, por exemplo, que o mundo foi criado durante intermináveis sete eras geológicas. Aliás, ele não poderia escrever assim, pois lhe faltava tal referente. 

Bem, antes que algum religioso brigue comigo nas páginas do Facebook, devo dizer que sou teólogo de formação (teólogo anabatista), creio em Deus e em Sua Palavra. No entanto, entendo que Deus, em sua Infinita Sabedoria, permitiu aos escritores da Bíblia se valerem de uma infinidade de estilos e categorias literárias, entre eles os mitos. Afinal, se engana quem pensa que mito é antônimo de verdade. Mais ainda se enganam os que pensam que mito é mentira. Os mitos, a exemplo do que ocorria com as parábolas tão usadas por Jesus, eram alegorias utilizadas para lançar luzes sobre o que estava desconhecido. Tanto é verdade que teóricos como Freud e Jung desenvolveram teorias psicológicas válidas até hoje, a partir de narrativas míticas, como o Complexo de Édipo e o Narcisismo (Freud) e o Complexo de Eletra (Jung).